Semana do dia dos pais – Minha homenagem a todos através do meu pai


Ah! o meu pai…..Quantas histórias lindas tivemos juntos…risos, sonhos e emoções….Como foi bom ser criança e ter você ao meu lado!Posso ainda ouvir você falando com forte sotaque italiano, melhor dizendo, falando os dois idiomas ao mesmo tempo.E tinha aquela canção…”quell massolin di fiori.. que venga della montagna..”, que eu amava tanto ouvir! Descobri, muitos e muitos anos depois, que você a cantava para mim no berço.Que delícia acompanhar você fazendo barba, com todos aqueles apetrechos, a cara igual à de um Papai-Noel!Como esquecer nossos passeios de carro, quando você me colocava no seu colo, enquanto eu, segurando no volante, “dirigia” o carro, com você reforçando essa minha “autonomia”. E os bilhetes da professora que você assinava, sem contar para a mamãe. Quanta cumplicidade nós tínhamos…, mamãe até chama-nos de “carne e unha” tão ligados éramos.Lembro do grande amor que sentia por você, quando caminhando pelas ruas, abraçava suas pernas e, naquele momento, você era o meu super-herói, forte, grande e poderoso!Os domingos eram mágicos! Primeiro porque tinha você por perto, e havia aquela mesa enorme, com um monte de coisas gostosas.Muitas foram as vezes em que haviam convidados, todos falando junto, num jeito tipicamente italiano das famílias daquela época. Era um monte de crianças brincando, brigando e se divertindo. E o que dizer de nossas matinês dominicais, para assistir ao “Tom & Jerry”, melhor ainda quando íamos somente eu e você, que delícia, porque naquele momento você era o meu “namorado” só meu.Somente eu tinha permissão para ir ao autódromo de interlagos com você ,ver as corridas do seu carro. E tínhamos a louca ousadia de atravessar a pista de corrida em pleno desenrolar dos torneios! Dois loucos imprudentes!A vida se iluminava quando você estava por perto!!Os primos amavam quando você chegava, era uma farra só, com suas histórias de carros, a vivência na II Grerra Mundial, os carros que prometia construir para eles, era um delírio só.E me fiz adolescente!Veio o golpe militar, veio a falência, veio a doença, veio do Dia dos Pais…e … naquele dia… você se foi….Foram com você a alegria, o riso, o sonho e a fantasia….Ficou o envelhecimento precoce, a sisudez e o amargor da vida agora, em preto e branco, a raiva pela sua ausência.Procurei por você por tantos anos, nos amigos, nos tios, em todo mundo que tivesse a sua alegria e a sua luz, que fosse a festa que você era. Alguém que falasse também com aquele sotaque italiano misturado, me chamava a atenção, mas…você não estava lá, não era você…Andei por tantos lugares, você não estava em canto algum!O tempo cuidou de fazer os curativos necessários, mas ficou a cicatriz, a marca de uma saudade tão profunda…..Cresci, estudei, me formei, me profissionalizei, e todas as conquistas profissionais, não preenchiam o vazio que você havia deixado.Um dia, senti você reviver no meu coração!Comecei a garimpar fatos e histórias junto à família, seu jeito de ser, sua maneira de pensar e de ver a vida. Porque de tão grande, a sua ausência fez com que a sua imagem fosse como a de uma foto antiga, apagando-se…..E…um dia… depois de tantos e tantos anos, estava eu naquele avião pousando na sua terra. Chegava na Itália, de onde você havia partido em 1950 e nunca mais voltara. Na primeira escala em Milão, aqueleas fotos apagadas da minha lembrança, começaram a ficar coloridas.Andei pelas ruas onde você andou, conhece seus amigos, suas histórias. Vi as coisas que você lá deixara. Boa parte da gente que ficara lá, ao pé da montanha, na estrada acenando num adeus, quando você foi embora.Fui reencontrando você nas lembranças dos seus amigos, dos parentes, naqueles lugarejos maravilhosos, sob a cor daquele sol da música que você tanto amava: “Oh sole mio…..”E, naquelas ruas estreitas, tantos anos mais tarde, recebi o seu legado, a grande lição da minha vida: a felicidade estava nas coisas simples daquela gente, da sua gente, na alegria em compartilhar um pedaço de pão caseiro e um copo de vinho feito ali mesmo, no quintal da casa, a confiança na palavra dada e na amizade. Aprendi o sentido da palavra coragem, coragem que você teve em deixar toda a sua história, sua língua e seus amigos, e vir “buscar a vida!” numa terra tão estranha!

As cores, os sons o jeito de ser das pessoas daquelas cidades tão lindas, que você viveu e deixou um dia, coloriu a minha vida, que tomou novo sentido, novo rumo. Finalmente eu havia te reencontrado e me encontrado, na coragem de um povo e na semelhança de nossas almas.Encontrei o amor no homem com quem me casei, ao som das músicas que falavam de você, que você cantarolava para a mamãe, e que você amava, e me tornei mãe de sua neta.

Este será o 43º Dia dos Pais sem você, mas com a certeza de que você vive dentro do meu coração. As minhas lembranças deixaram de ser as de um desconhecido, numa foto antiga em preto e branco.

Escrever esta história e publicá-la é um tributo de amor a você, meu amor, meu herói!!

Te amarei para sempre!!Maria Cristina Di Pietro Aguiar e Silva

São Paulo,08 de agosto de 2010